A Academia – Parte I

A primeira oportunidade de trabalhar na área acadêmica foi no campo da Arquitetura, como Auxiliar de Pesquisa, proporcionada em 1961 pelo Prof. Dr. Nestor Goulart Reis Filho, então docente de “Arquitetura no Brasil”, disciplina do 4o ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, ainda sediada na Rua Maranhão. Como terceiranista de Engenharia da Universidade Mackenzie, estagiei até 1963 em seu escritório de projetos, nas atividades de campo e pesquisas bibliográficas.

Em fins de 1963, concluinte do curso de Engenharia Civil, retorno para a área acadêmica como Colaborador Voluntário na disciplina “Planejamento Urbano e Territorial”, oferecida em nível de pós-graduação da Universidade de São Paulo, sob a titularidade do Prof. Dr. Lauro Bastos Birkholz, o qual trabalhava na Secretaria de Estado de Serviços e Obras Públicas de São Paulo, onde exerci a Chefia de Gabinete, e ele, a Coordenadoria do Grupo de Planejamento Setorial.

Iniciam-se, nessa fase de minha vida, aproximações e afastamentos manifestos e recorrentes do ambiente acadêmico, da militância político-partidária e da função pública oficial. De um lado, a vocação científica, o desejo incoercível de pesquisar as origens e as manifestações do conhecimento humano e o ideal de ser professor. De outro, a ambição do exercício do poder político que desde muito jovem comecei a vivenciar, já revelada em minha infância no meio familiar através de sucessivos mandatos parlamentares e das posições e funções de governo ocupadas e desempenhadas por meu pai, Mario Beni, e que parecia ser prevalente.

Para aperfeiçoar conhecimentos no domínio das ciências humanas e sociais, matriculei-me, em 1964, na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Instituição Complementar da Universidade de São Paulo, ao mesmo tempo em que ingressava na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na efervescência do Movimento Revolucionário de 1964, do Levante Militar e da Crise Institucional, que culminou na deposição do Presidente Constitucional e instalação do Regime Militar, vi-me internamente questionado nos mais profundos ideais de democracia e humanismo. Envolvi-me na essência do confronto íntimo entre o valor que atribuía ao meu ser existencial e o compromisso das funções e cargos político-administrativos que exercia no Governo do Estado de São Paulo. Somava-se, ainda, a essa situação conflitiva, a poderosa influência de meu pai, ora Presidente Nacional do Partido Social Progressista, ora Líder da Bancada Federal do PSP no Congresso.

Em 1966, devo confessar que, mesmo contrariado, seguindo as diretrizes do partido político a que pertencia, já dissolvido, filiei-me à Aliança Renovadora Nacional e, por esta legenda, concorri à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, ficando na primeira suplência e assumindo uma cadeira logo após. Minha atividade parlamentar foi subitamente interrompida, no final de 1967, com o compulsório Recesso Parlamentar decretado pelo Governo Federal.

A Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais, em 1968, ganha toda a minha atenção e passo a acumular créditos para uma futura Dissertação de Mestrado, ocasião em que me aproximo, intelectual e cientificamente, de seu Diretor, Prof. Dr. Antonio Rubbo Müller, criador da Teoria da Organização Humana sob a inspiração de Claude Lévi-Strauss. Suas aulas e seminários, ao estilo da Universidade de Oxford, onde se doutorou, reacenderam o ideal da pesquisa e da docência.