Mario Beni, meu Pai

O Pai é a mão certeira que orienta o filho no curso da vida. Em sua companhia, tendo-o no colo nos primeiros dias, acompanha-o nos passos iniciais e dele faz seu parceiro. Meu pai, quanto lhe sinto a falta, o calor de sues abraços e de sua mão a me conduzir, de seus beijos calorosos, de suas palavras e conselhos, de sua proximidade.

Pos mais imorredouro que isso seja, só consigo verter para o papel e o computador parte de todas as minhas lembranças e recordações.

Modelo de conduta, par exemplar, quis retratar um pouco de sua vida em parte para as minhas próprias reminiscências, para os familiares e para os que nos sucedem.

E mais, muito mais, meu pai, por você ter sido MEU HERÓI, e espelho antes e depois de eu nascer, pois sou seu fruto, sua continuidade. Como aliás Joseph Campbell diz magistralmente em seus estudos.

Nas circunvoluções dos tempos, as gerações deveriam ser melhor estudadas e compreendidas. A geração de um novo ser nunca será resultado do mero acaso, mas de um planejamento sideral e de bilhões de anos, compartilhado por todos os envolvidos.

Assim, na eternidade prescrita de nossas vidas, agradeço-o e louvo-o.

Sei que estou limitado por minha memória e pelos neurônios, mas haverá um lugar em que todos estamos vivos? Sim, certamente, e este é o das emoções e sentimentos, que nem os deuses possuem. É por isso que invejam os grandes homens, ceifando-lhes a vida quando descobrem como eles são preciosos!

Herdei de meu pai não só estruturas do genótipo, traços de caráter e personalidade, mas uma ancestralidade conhecida e comprovada desde o Império Romano. Um pouco também do nome e de seu magno coração.

Nasceu em São Manuel, SP, em 20/05/1905, filho de Giuseppe Beni e Anita Cocchieri Beni; italianos que chegaram ao Brasil em fins do século XIX.

Nessa cidade, concluiu os cursos primário e secundário no Colégio Carlos Bom, de padres franceses, o mesmo em que estudara Adhemar de Barros. Começamos a ver aqui confluências, diriam os psicólogos junguianos certos coincidências embora assincrônicas, entre Adhemar de Barros e Mario Beni.

Em 1921 mudou-se, em razão da transferência de seus pais, para Casa Branca, SP, onde formou-se professor primário.

Freqüentava, como todo jovem que aprecia esportes e dança, o Clube Príncipe de Nápoles. Um dia do ano de 1924, porém, foi a um baile no Clube Casa Branca, que era uma sociedade fechada, de elite, enfrentando os quatrocentões barões do café da cidade. Lá chegando, o Presidente do clube, da Câmara Municipal e chefe político, Luiz Onório de Syllos, barrou-lhe a entrada, dizendo-lhe: – Italianinho aqui não entra. O seu clube ´o Príncipe de Nápoles.

O jovem Mario Beni, orgulhoso de ser brasileiro e descendente de italianos, num ímpeto de momento e com o impulso da mocidade, respondeu-lhe: – Não entro nesta noite, mas essa arbitrariedade será corrigida quando um dia serei recebido aqui como personalidade de Estado. Vinte e três anos depois, em 1947, foi hóspede oficial do município e recebi homenagens na Câmara Municipal e naquele mesmo clube, ocasião em que estava presente o antigo presidente que o desacatara.

Este fato, de caráter premonitório, é mais comum do que supomos. Todos nós, quando atacados no âmago de nossos ideais e sonhos, parece que temos uma antevisão de nossa programação futura, permitindo-nos o exercício da presciência. Cito isto para ilustrar que essa vivencia, por estranha ao jovem de então, calou tão fundo em sua psique que era lembrada sempre. O que poderia passar por bizarro não o é quando indagamos: o quê sabe o Homem sobre si mesmo? Muito pouco ou quase nada, se é que sabe de algo.

As pesquisas científicas descobriram que a experiência de quase morte é um produto da química “agonizante” do cérebro para sobreviver, e isso é recente. Que mecanismos são acionados quando alguém quer nos deter ou atacar na realização de nosso futuro? Aguardemos mais estudos sobre o cérebro e a consciência em seus muitos níveis.

E recordando esse acontecimento, dizia-me com olhos lacrimejados que fizera questão de na noite daquele dia, de honras recebidas na Prefeitura e na Câmara dos Vereadores, de feriado e desfile de estudantes, no jantar oferecido pelas autoridades locais e naquele mesmo local onde fora impedido de ingressar, despir-se da função de Secretário de Estado da Fazenda de São Paulo para, em seu discurso ter como centro a figura do antigo Presidente do Clube, presente à cerimônia, dizendo-lhe que se não fosse por aquela incidente, talvez tivesse permanecido em Casa Branca e conseguido reunir esforços e muito trabalho que lhe permitiram galgar degraus em sua caminhada de alto executivo do governo, de líder, de homem público.

Muda-se depois para São Paulo após terminar o curso de Contabilidade em Ribeirão Preto, SP, e depois o de Ciências Econômicas e Atuariais na escola Álvares Penteado, no Largo de São Francisco, em sua primeira turma. Sua inscrição na Ordem dos Economistas de São Paulo é a de nº 1 (um).

Quando ainda em Casa Branca, funda junto com seu irmão Nevio, uma escola de comércio.

Queria meu pai cursar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mas o curso era diurno e após receber uma carta de seu próprio pai, em que este confessava desesperado que não tinha condições de sustentá-lo, é que decide fazer aquele curso, que era o único noturno na época, pois também o trabalho lhe aguardava.

Casa-se em 1929 com Diva Ferraz César, tendo um único filho, Mário Carlos Beni.