2015 – Natal de 2015

Estamos isolados em rede, na adversidade e dispersão?

Ou desta fatuidade poderemos construir nossa redenção?

Vivemos num tempo de caos, rico em potencial para novas possibilidades. Um novo mundo está nascendo. Precisamos de novas ideias, novos modos de observá-lo e compreender os novos relacionamentos para nos ajudar agora que as relações humanas não são mais espaços de certeza, tranquilidade e conforto espiritual.

Em vez disso, transformaram-se numa fonte prolífica de ansiedade.

Em lugar de oferecerem o ambicionado repouso, entrega-nos uma inquietude perpétua e uma vida em permanente estado de alerta.
Os sinais de aflição parecem não cessarem de piscar, os toques de alarme nunca vão parar de soar.

Em tempos líquidos, como define o sociólogo polonês, Zygmund Bauman, a crise de confiança traz consequências para os vínculos que são construídos. Estamos em rede, mas isolados dentro de uma estrutura que nos protege e, ao mesmo tempo, nos expõe, fragilizando nossas relações e, diante disso nós constatamos inúmeras vezes, seja qual for a plataforma digital que usamos, acreditando que a quantidade vai superar a qualidade que gostaríamos de ter.

Nesses tempos fluídos modernos, as pessoas precisam e desejam que seus vínculos sejam mais sólidos e reais. Por que isso acontece? Seriam as novas redes de relacionamento que são formadas em espaços digitais que trazem a noção de aproximação? Talvez sim, afinal a conexão com a rede, muitas vezes se dá em momentos de isolamento real. Quanto mais ampla a nossa rede mais comprimida está no painel do nosso celular.

Preferimos investir nossas esperanças em “redes” em vez de parcerias, esperando que em uma rede sempre haja, receptores, seguidores disponíveis para enviar e receber mensagens de lealdade.

E já que a novas sociabilidades, aumentadas pelas pequenas telas dos dispositivos móveis, nos impedem de formar fisicamente as redes de parcerias, apelamos então, para a quantidade de novas mensagens, novas participações para as manifestações, efusivas nessas redes sociais digitais.Tornamo-nos portanto, seres que se sentem seguros somente se conectados a essas redes. Fora delas os relacionamentos são frágeis, superficiais.

A liquidez do mundo moderno esvai-se pela vida, parece que participa de tudo, mas os habitantes dessa atual modernidade, na verdade, fogem dos problemas em vez de enfrentá-los. Quando as manifestações vão para as ruas elas chamam a atenção porque se estranha a formação de redes de parceria reais. Para vínculos humanos, a crise de confiança e má notícia.

De, clareiras isoladas e bem protegidas, lugares onde se esperava retirar (enfim) a armadura pesada e a mascara rígida que precisam ser usadas na imensidão do mundo lá fora. Duro e competitivo, as redes de vínculos humanos se transformam em territórios, de fronteira, em que é preciso travar, dia após dia, intermináveis conflitos de reconhecimento.

A nova ciência – as novas descobertas na biologia, a teoria da complexidade e a física quântica, que estão mudando nossa compreensão de como o planeta funciona, nos oferece essa orientação. Ela descreve um mundo no qual o caos é natural e onde a ordem existe “para nos libertar”
Exibe as teias intrincadas da cooperação que nos conecta e, nos assegura de que a vida busca a ordem, mas usa a desordem para chegar lá.
São muitos os que vêm perturbados por questionamentos sempre presentes no âmbito familiar, profissional, religioso e sociopolítico, como o estamos vivendo neste ano.

Porque o progresso, quando se manifesta, surge com frequência de lugares inesperados ou como resultado de surpresas ou eventos em sincronia que o nosso planejamento não, levou em conta? Porque a própria mudança já não nos surpreende e o programa que se supõe que estejamos administrando, não para de se sobrepor a nós, fazendo incansavelmente que nos sintamos menos capazes e mais confusos.

E por que as nossas expectativas de sucesso se reduziram a ponto de, muitas vezes só nos restar esperanças de conseguir manter o vigor e a paciência necessários para suportar as forças destrutivas que aparecem com frequência nas nossas organizações e na nossa vida?

The Tuning Point, de Fritjot Capra, que descreve a nova visão do mundo advinda da física quântica nos proporciona um primeiro vislumbre de uma nova maneira de perceber o mundo, um jeito que abrange seus processos de mudança, sua natureza profundamente estruturada e suas densas redes de conexões. Faz-nos evoluir para uma visão de ordem inerente ao universo, aos processos criativos e às mudanças, que, embora fossem dinâmicas e contínuas, conservavam a ordem e a mudança, a autonomia e o controle não eram os grandes opostos que pensávamos que fossem.

Era um mundo no qual a mudança e a criação constante eram maneiras de manter a ordem e a capacidade. É preciso termos a percepção que estamos vagando por um território que cria novas visões de liberdade e de possibilidades, mostrando-nos uma maneira diferente de comunicar uns com os outros. Cada um de nós começa a reconhecer e a se surpreender com os sentimentos que essa história descreve, de estar habituado a soluções que antes davam certo, mas que agora se mostram totalmente insatisfatórias, de ver o tapete ser puxado de baixo de nossos pés repetidas vezes, seja por uma fusão corporativa, quer reorganizações, pela dedução do porte da empresa ou pela desorientação pessoal. Mas essa história também nos traz grande esperança na qualidade, de parábola que nos ensina a receber bem o desespero, encarando-o como um passo na estrada da sabedoria, ela nos encoraja a seguir trilhas desconhecidas e a ficar receptivos a ideias radicalmente novas.

Se suportarmos a confusão e a tensão reinante em nossos dias, começaremos a ver um território completamente novo, cheio de uma luz capaz de dissipar as sombras opressivas da nossa atual ignorância.

Para ser inventores e descobrir responsáveis, precisamos ter a coragem de nos desapegar do velho mundo, de renunciar a muita coisa que temos prezado até agora, de abandonar as nossas interpretações o que funciona e o que não funciona. É necessário aprender a ver o mundo de uma maneira nova e revigorada. Creio, que os nossos modos atuais de planejar e organizar, estão ultrapassados, e que, quanto mais tempo permanecemos apegados aos nossos modos convencionados de agir tanto mais nos afastamos dessas maravilhosas brechas na compreensão que o mundo da ciência chama “ refinamentos” As camadas de complexidade, o sentido de que, as coisas estão além do nosso controle, bem como a forma de pensar e agir, não passam de sinais do nosso malogro em compreender uma realidade mais profunda não só de vida organizacional como da vida em geral.

Portanto, a principal pergunta hoje não é, O que fazer? As pessoas não chegam nem a pensar no que deve ser feito, porque para chegar a essa pergunta, elas têm que passar por outra pergunta, que é mais difícil de responder: Quem vai fazê-lo? Podemos imaginar que a verdadeira causa da importância dessa pergunta é o atual divórcio entre o poder e a política. O poder é a capacidade de fazer coisas. E a política é a capacidade de decidir que coisas devem ser feitas. O poder e a política até há cinquenta anos atrás, eram óbvio para todos. Tanto o poder quanto a política estavam nas mãos do governo. E, se decidíssemos – eu, você e o resto – o que precisava ser feito, aquilo era realizado. O Estado tinha autoridade de decidir e o poder de agir. Mas isso não é mais assim, pois há um divórcio entre o poder e a política. Não tem sido, ultimamente, evidenciado este cenário em nosso país?

O mundo que habitamos co-evolui à medida que nos relacionamos com ele. Esse mundo não pode ser fixado, está em constante mudança e é infinitamente mais interessante do que podemos imaginar!

O ser humano livre é um ser humano sábio, permanentemente a caminho de níveis de liberdade cada vez mais elevados e cada vez com maior energia. A pessoa supremamente livre revela equanimidade perfeita, afetos vigorosos, ricos e profundos, e mostra-se ativa numa grande variedade de maneiras, que correspondem às numerosas partes do corpo, todas elas ligadas por um entendimento crescente- e incluindo ações sociais e políticas. Esta identificação alargada com Deus poderá eventualmente convergir com a ética dos ecossistemas, com a ética ambiental. E, será isso possível, à medida que aumenta a nossa compreensão de Deus e dos indivíduos, neste sentido intuitivo e místico.

Convido-o, portanto, neste Natal e Novo Ano à reflexão desse texto.

MARIO CARLOS BENI
Natal de 2015

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