Recordações

Deixo agora de recorrer à cronologia para registrar lembranças que me ocorrem e que assinalam recordações mais vívidas.

A morte é uma desgraça na vida de todos, transformando quase tudo em buracos negros. Absorvedores do todo, às vezes desaparecem e surgem como constelações fulgurantes, em que a pessoa reassume sua antiga energia e se faz presente em nossa mente. É assim com meu pai quando me lembro dele, e isso quase sempre.

Assim, o que se segue é resultado de momentos vibrantes em que recapturo a vida esvaída e recupero lampejos de existência conscientes e tridimensionais.

Quando nosso assunto era a França, lembrava-me e contava-me, como se fôra hoje, que quando o Presidente Charles de Gaulle estivera em visita ao Brasil, foi por ele condecorado com a Legião d’Honeur.

Como homem público, é claro que suas recordações e as minhas também recaíssem sobre fatos marcantes de sua vida.

Convidado pelo Presidente João Goulart para o Ministério da Indústria e do Comércio, em menos de dois dias teve o convite transferido para o Ministério da Justiça por injunções políticas do PSD, majoritário no Congresso. Ético e alegando não ser advogado, declinou do convite, indicando seu companheiro de bancada, Gabriel Nasser, ilustre advogado de Goiás. Nesse mesmo governo, foi-lhe oferecido o Ministério da Saúde e, mais uma vez declinou, indicando seu colega de bancada do Rio de Janeiro, Prof. Pinotti; catedrático da Faculdade de Medicina daquele Estado. De novo, o cargo de Ministro de Estado passou-lhe ao largo.

Na época do Presidente Getúlio Vargas, foi indicado pelo seu partido para o Ministério da Fazenda, mas acabou perdendo-o para o deputado Horácio Lafer, da bancada paulista do PSD.

Em 1954, era o candidato natural do PSP e do Governador Lucas Nogueira Garcez a governador do estado, e o Deputado Cunha Bueno do PSD, a vice-governador. Na última hora, Adhemar de Barros apresenta-se à convenção partidária, torna-se o candidato oficial e perde para Jânio Quadros, que teve o apoio de Garcez, rompido com Adhemar. Nessa ocasião, eu, seu filho, tive a oportunidade de servir um uísque para o candidato Jânio Quadros, que viera à minha casa convidar meu pai para ser candidato em sua chapa ao Senado da República. Entretanto, por sua lealdade a Adhemar de Barros, declina do convite. Jânio sai de casa e convida Áuro Soares de Moura Andrade, e o elege. Lembro-me do comentário de papai: – Em política, o cavalo encilhado passa uma só vez. Ou você monta ou perde a cavalgada.
Respondi: – Não importa. Haverá uma próxima vez. Houve… ele montou, mas perdeu para o mesmo Auro, por menos de cem mil votos.

Na eleição onde Adhemar de Barros se elege Governador, dessa feita não lhe dá a Secretaria da Fazenda, convidando-o para a presidência da CEAGESP, onde realizou excelente administração.

Habilita-se mais uma vez a candidato potencial do partido e de Adhemar de Barros. Bem… mas aí vem o golpe militar de 1964 com a cassação de Adhemar e a extinção dos partidos políticos.

Mário Beni, a esta altura, Presidente Nacional do PSP, encerra a vida de seu partido, lavrando em ata um violento protesto pelo conteúdo do Ato Institucional nº 5 que, cassando o registro político dos partidos no Brasil, fere de morte o princípio das liberdades e da vida democrática.

Imaginando que ali encerraria sua carreira política, logo mais atende o pedido do amigo cassado que, no ostracismo de Paris, solicita-lhe para ingressar na ARENA, partido do governo revolucionário. Na ocasião, justifica o pedido dizendo-lhe : – Sei que nossa gente não irá para a oposição; portanto, preciso que você cuide deles na ARENA e construa nele o nosso PSP.

Foi o que fez.

De uma lealdade servil a Adhemar de Barros, nunca o contrariou, aplaudindo sempre seus acertos e sendo solidário e tolerante com seus erros.

Creio que a providência divina e o capricho do destino colocaram-nos novamente juntos na posteridade. Quem segue de Campinas à Média Mogiana, toma a rodovia Adhemar de Barros, depois, derivando à esquerda, em direção ao sul de Minas, toma a rodovia Deputado Mario Beni até Casa Branca.

Nos dias atuais, sempre que viajo para o Rio Grande do Sul, em atividades acadêmicas, volto-me para a figura de meu pai em suas andanças pelo Brasil. Em 1950, por exemplo, acompanhou Adhemar até São Borja para convidar Getúlio Vargas a candidatar-se a Presidente da República, quando ele próprio já tinha aconselhado Adhemar a postular a presidência. Mas, nessa oportunidade, saiu de São Borja como vice de Getúlio, sendo substituído mais tarde pelo deputado potiguar Café Filho. Infelizmente, nem sempre a história oficial registra fatos tão relevantes como este com relação a Mario Beni.

Tenho em casa alguns armários estilo “império” que, em suas montras, exibem, além das minhas, condecorações de meu pai. Meus visitantes sempre se revelam curiosos sobre elas, e fico imaginando quais seriam os sentimentos, os pensamentos, as sensações que ele teria ao recebê-las. Eis algumas:

– Ordem do Mérito Militar da Aeronáutica, da Marinha e do Exército Nacional
– Couto Magalhães
– Princesa Isabel
– Barão do Rio Branco
– Marechal Rondon
– Ordem Nacional do Mérito (Itália)
– Stella della Solidarità (Itália)
– Ordem Nacional do Mérito (Argentina)
– Ordem do Cruzeiro do Sul
– Gran Collar de la Orden del Merito (México)
– Gran Cruz ( Mônaco)
– Ordem do Crisântemo ( Japão)
– Comenda de São Lázaro de Jerusalém
– Gran Chanceler da Ordem de Malta
– Comenda de San Giovanni de Latrano.

Foi também Presidente e Provedor da Ordem do Senhor Bom Jesus dos Passos. Penso agora que, não por acaso, esses passos tão fielmente partilhados, sempre o antecederam em suas jornadas. De profissão de fé Católica Apostólica Romana, cultuava o Supremo Deus e nunca faltava às missas nos domingos.

Na qualidade de empreendedor, superou expectativas e avançou em pioneirismo em muitos setores. Quando foi proprietário e sócio majoritário da Cerâmica Santa Helena, introduziu o primeiro piso vitrificado no Brasil. Como Presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras de 1958 a 1966, além de equilibrar as finanças do clube, foi o primeiro dirigente de agremiação esportiva brasileira a negociar a venda de atletas nacionais para clubes estrangeiros. Numa época em que não se falava de ganhos de produtividade e quando possuía a Agroindustrial Sertão, conseguiu engarrafar um milhão de litros de aguardente de boa qualidade por safra.

Essas atividades serviram-lhe de lastro de outras experiências bem sucedidas na produção de leite e laticínios, bem como na suinocultura.
Apurou e foi um destacado criador de vacas holandesas P.O., e de suínos, destacando-se as raças Duroc Jersey e Edel.
Quando afastou-se da militância político-partidária e do exercício pleno de altas funções públicas, retorna à iniciativa privada, pois não aceitava a idéia de tornar-se um cidadão passivo sem deter o comando de decisões e a gerência de processos organizacionais.

Assim é que na empresa Laticínios União S.A ocupou a Vice-Presidência executiva.

Embora um de seus grandes sonhos fosse servir o Brasil como embaixador na Itália, para cuja função estudara e criara condições políticas para sua indicação, jamais a concretizou em razão desse posto ser um dos mais disputados pelo Itamaraty. Mas o velho Mediterrâneo chamava-o inapelavelmente para ainda, saindo das brumas dos Templários e dos contatos com o Oriente, atuar nos destinos também da República de Malta, da qual foi o Cônsul Geral no Brasil, fechando quase num cingimento de destinos paralelos um périplo diplomático de fraternidade e realização de estreitamento histórico cultural e de relações comerciais.

Com isso, inspirou-se para criar a Sociedade Consular Honorária de São Paulo, da qual foi decano e primeiro presidente.
Apesar de estar circunscrito a áreas mais privadas que públicas, era sempre bafejado em função de sua posição conquistada na política e permanente liderança de grupos de opinião para comandar órgãos colegiados de consultoria e participação do próprio governo.

Assume, assim, a Presidência do GAP / Administração, a convite do Governador Paulo Maluf, em que teve derrota da pelos interesses tacanhos da Petrobrás a implantação das primeiras usinas de energia solar numa oferta gratuita do Estado de Israel.

Homem afeto à extensa convivência social, quando exercia a Vice-Presidência Administrativa do Nacional Club, chegava pontualmente às 11horas e após passar pelo seu escritório e percorrer todas as dependências, chegava ao meio dia e meia ao bar inglês para solenemente beber sua dose de uísque e encontrar-se com os amigos em sua mesa, sempre repleta de convidados.

Em companhia de primos e amigos para visitar organizações financeiras no centro velho de São Paulo, no pensamento reconstituo o seu trajeto habitual em direção à rua Três de Dezembro, onde, como sócio majoritário, fundara a Corretora de Valores Beni e Magliano e, com o decorrer do tempo levou seu sócio a engajar-se também na sua transformação para Sociedade Corretora de Valores. Aí, conforme a lei prescrevia, teve seu nome retirado da sociedade por exercer notória função pública como parlamentar e Secretário de Estado da Fazenda, mantendo, entretanto, ações nominais preferenciais em seu nome.

Ampliando sempre seus negócios fundou com outros participantes a Casa Bancária Pan-Americana, a qual, mais tarde, tornou-se o Banco Mercantil Pan Americano com sede própria na Rua Boa Vista.

Sempre idealista, romântico, sonhador e cultor das artes em geral, jamais dispensou a habito de organizar em sua casa saraus, recepções com música ao vivo e trechos de óperas cantados por interpretes líricos amigos. Como apreciador de música erudita e popular, extraia de seu piano de cauda velhas composições dos mestres clássicos e também dos populares, pois era ademais exímio acordeonista e na juventude, violinista da orquestra do Cine Casa Branca. Compôs a valsa “ Soluços de minha alma” e o baião do IV Centenário de São Paulo.

Em 1954 convidado por Cicillo Matarazzo, integrou como Diretor Administrativo a Bienal de São Paulo.
Parece que nessa verdadeira expedição de memórias de meu pai, avolumam-se as recordações, trazendo-me situações vividas com todo o ímpeto de realismo como se fossem verificadas momentos antes.

Lembro-me de seu imenso orgulho quando ingressei por concurso público no magistério da Universidade de São Paulo, fato este que divulgou envaidecido aos amigos, talvez sinalizando para mim o verdadeiro caminho para a realização profissional e pessoal. Ele jamais quis que eu fizesse carreira política ou até fosse um executivo financeiro por considerar que minhas aptidões não caminhavam nessa direção. Sobejava nele a idéia ancestral de ser um preceptor, um educador e um orientador de tendências inatas e vocacionadas para o dinamismo de realizar inovações, mudanças sociais, movimentos setoriais e globais para o progresso da ciência e da educação no país, missão para a qual ele sempre se ajustara e preferiria, embora sem tempo hábil para dedicar-se à pesquisa e docência.

De tantos vultos históricos com o nome de Mario e talvez sentindo-se perenizado com o pensamento de imortalidade latina, fundou o Clube dos “Mários”, Sociedade de Gastronomia e Enologia, de regime anárquico, tendo como patrono o cônsul romano “ Mário Gracco”.
Mario Beni que havia sido simples cabo da Intendência na Revolução Constitucionalista de 1932, além das condecorações militares que recebeu, integrou a primeira turma de formados da Escola Superior de Guerra no Rio de Janeiro, em 1960, obtendo a patente “ Coronel da Reserva do Exército”.

Viajava com freqüência para a Europa e ficava mais tempo preferencialmente na Itália, na França e na Inglaterra. Vestia-se com refinado apuro, elegância, sempre de terno e gravata com seu impecável chapéu gelô. Tinha hábitos indeclináveis, pois possuía alfaiate, camiseiro, sapateiro e perfumista em Londres onde adquiria a lavanda “ Bond Street”.

Em minhas ultimas viagens a Londres e a Paris procuro numa figuração mental, percorrer-lhe os passos de refinado consumidor e de bom gourmet. Assim, tenho a impressão de não só estar vivendo o sabor dos lugares visitados, mas também de ter a inefável presença de meu pai junto a mim e a meus pensamentos, chegando mesmo a idealizar encontros mágicos…

Desde os meus tempos de estudante, respirava na companhia da família um ar de antiga aristocracia eivada pelo cosmopolitismo intelectual adquirido principalmente pelo meu pai. Ainda me recordo de suas vivências quando ele me relatava as situações por que passara quando foi diretor do IDORT, da Carteira de Câmbio do Banco do Brasil – Cacex, e da Cosipa – Companhia Siderúrgica Paulista.
Ainda como redator econômico de A Gazeta, aos trinta e três anos, foi enviado para freqüentar um curso de pós-graduação em bussiness administration na Columbia University em Nova Iorque, curso que lhe ampliou os horizontes de sua atuação política e empresarial.
Foi também membro observador de reuniões do FMI e depois integrou o Conselho Nacional de Moeda e Crédito.

Mais velho de cinco irmãos, Mário, Névio, Olga, Jacy e Joracy, sempre assumiu o alicerce da vida familiar, exercendo o nobre papel de chefe de família e provedor do clã, como o antigo pater familia dos antigos romanos.
Todo domingo, sempre que possível, reunia a família toda para o almoço, ocasião em que à frente da mesa sempre farta e festiva, trocava notícias e vivia intensamente os laços desse núcleo de irmandade. Lembro-me que, sobretudo na ceia de Natal ele vestia-se de Papai Noel e fazia questão de abraçar cada um e presenteá-lo, quer seus amados familiares morassem perto ou longe, cobrando deles a presença obrigatória em todos os natais.
Cultor das artes e como um pequeno príncipe medieval, reuniu em seu lar obras escultóricas e pictóticas dos mais afamados artistas brasileiros e alguns estrangeiros. Dedicava a seu acervo momentos de profunda reflexão, como a assimilar o que de mais sublime a expressão humana conseguia atingir e figurar.

Já viúvo, comprou um apartamento menor, onde viveu até seus últimos dias.

Para consternação geral, meu pai Mario Beni, tão assíduo nas colunas políticas e sociais dos jornais paulistas, nos abandona em 1988, aos 83 anos no Hospital Albert Einstein, vitimado por um acidente vascular cerebral, rodeado de parentes e amigos.

Seu corpo foi velado no Salão Nobre da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Passaram pelo local quatro ex-governadores, Abreu Sodré, Laudo Natel, Paulo Egydio Martins, Paulo Maluf, o Governador da época Orestes Quércia, e o ex-presidente Jânio Quadros, além de amigos, familiares e conhecidos, prefeitos, vereadores, parlamentares, industriais, empresários, banqueiros, presidentes de clubes paulistas, cônsules e a população em geral.

Todos consternados, acompanharam o féretro até o Cemitério São Paulo onde seus despojos mortais estão sepultados no jazigo da família.

A vida de meu pai não se encerrou naquele dia e no momento em que, tal qual um herói romano, a velha carpideira lhe segou os fios da vida terrena.

Neste CD comemorativo ao seu centenário de nascimento, eu, seu filho, espero ter relatado e ilustrado alguns dos mais proeminentes instantes de sua vida e ainda permaneço como um fugaz mas importante espectador partícipe da riqueza de sua personalidade e saudoso conviver com sua sempre potente, enérgica e amorável labareda de ânimo e exemplo a refulgir no firmamento dos deuses tutelares de nossos destinos.

Até breve, meu pai!